Com quem e onde estão seus dados?
Você já parou para pensar no que aconteceria se, por decisão estratégica, os Estados Unidos restringissem o acesso de países considerados “não confiáveis” a serviços digitais fornecidos por empresas americanas? Pode parecer improvável até que deixa de ser.
Em meu artigo “Amnésia digital: quem é responsável por suas memórias na era da nuvem?”, abordei um pouco sobre segurança de dados e, principalmente, sobre como tratamos nossas informações. Recomendo a leitura caso queira discutir mais sobre esse tema.
Historicamente, o Brasil manteve uma postura diplomática amistosa com os EUA. Mas o mundo está mudando. Com o fortalecimento dos BRICS, a chegada de investimentos significativos da China (como as fábricas da BYD e da Goldwind na Bahia), a assinatura de estudos para a ferrovia transcontinental ligando o Atlântico ao Pacífico e o avanço das relações com o Sul Global, os holofotes de Washington voltaram para o Brasil um de seus principais parceiros comerciais em commodities.
Recentemente, num movimento ainda não oficial, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto de 2025. Ainda que soe como bravata, a proposta gerou um novo tipo de inquietação:
E se, além de tarifas comerciais, os EUA decidirem suspender o acesso aos serviços das Big Techs no Brasil?
Seria economicamente desvantajoso? Sem dúvida, tanto para EUA quanto Brasil. Mas, do ponto de vista geopolítico, poderia ser uma forma de pressão. E a pergunta que fica é: o Brasil está preparado para isso?
Um dia sem Google, WhatsApp, Azure, Android…
Vamos imaginar:
- Seu WhatsApp para de funcionar;
- Seu sistema de gestão empresarial, hospedado na AWS, sai do ar;
- Softwares de design e produtividade baseados em nuvem deixam de abrir;
- Seu aplicativo de paquera trava;
- Seu sistema operacional não recebe mais atualizações de segurança.
Esse cenário não é exagerado. A infraestrutura digital global cloud computing, redes sociais, sistemas operacionais e até protocolos de rede está altamente concentrada em empresas sediadas nos EUA e na Europa, sob legislações locais.
O Brasil, como muitos países em desenvolvimento, ainda apresenta vulnerabilidades estruturais nesse campo.
Spinternet: o fim da World Wide Web?
Países como Coreia do Norte e Cuba, que são extremamente embargados, possuem basicamente intranets locais. A Rússia, no contexto da guerra na Ucrânia, vem ampliando o controle estatal sobre a internet. A China já possui, há anos, um modelo rigidamente soberano.
Não cabe aqui discutir se essas medidas são boas ou ruins são decisões soberanas de cada nação. O que importa é compreender que a internet, como conhecemos, é controlada por uma potência que vem tomando medidas unilaterais até mesmo contra países aliados, numa tentativa de manter sua hegemonia.
Suas big techs são parte do braço estratégico: o que Washington decide, elas cumprem.
Soberania digital: mais que infraestrutura, é estratégia
Independentemente de um possível “fatiamento” da internet global, o Brasil precisa lidar com os fatos e agir, em vez de apenas especular.
Mesmo com datacenters locais, o IX.br, ampla cobertura de fibra óptica e provedores regionais, nossa dependência de serviços estrangeiros continua altíssima especialmente entre pequenas e médias empresas, que representam mais de 70% dos empregos formais no país.
Qualquer instabilidade impacta diretamente essas empresas, que, sem alternativas, podem recorrer a demissões em massa. O risco é real.
Um contexto histórico de soberania
Nos anos 1980 e 1990, o Brasil chegou a desenvolver uma indústria de software e hardware, ainda incipiente, com sistemas como o CISNE (inspirado no MS-DOS) e ferramentas como o editor de texto Carta Certa. Empresas como a Cobra Tecnologia (do Banco do Brasil) e a Itautec lideravam esse movimento, com suporte de fabricantes como Gradiente e CCE.
Contudo, com a abertura de mercado em 1992, o setor foi inundado por tecnologias estrangeiras mais avançadas e, muitas vezes, mais baratas. Sem políticas de proteção à soberania tecnológica, o ecossistema local perdeu espaço.
Nos anos 2000, houve uma retomada por meio do incentivo ao software livre. Iniciativas como Conectiva, Kalango, Kurumin e ERPs nacionais ganharam fôlego com a informatização de pequenas empresas. Órgãos públicos passaram a adotar Linux e alternativas abertas. Eu mesmo me entusiasmei na época com essas distribuições, muito bem adaptadas à realidade nacional.
Mas o lobby das grandes corporações e a influência diplomática norte-americana minaram esse avanço. Universidades e instituições públicas passaram a receber softwares proprietários gratuitamente uma prática conhecida como dumping tecnológico.
Eu mesmo recebi, durante minha primeira faculdade (2007), uma licença do Windows XP Professional.
Não é só abrir datacenters
Abrir datacenters brasileiros não resolve tudo. Isso exige:
- Domínio de tecnologias críticas;
- Capacitação técnica nacional;
- Cadeias de suprimento independentes;
- Investimento público contínuo em ciência, P&D e infraestrutura.
Temos talentos e centros de excelência, mas faltam escala, políticas públicas robustas e vontade estratégica.
Parcerias internacionais para intercâmbio de tecnologias e patentes são viáveis desde que favoreçam os interesses nacionais.
BRICS: uma alternativa real
Felizmente, o Brasil tem buscado caminhos alternativos. Um exemplo importante foi a assinatura de acordos de viabilidade para cabos submarinos entre países do BRICS, criando rotas independentes das controladas pelos EUA e União Europeia.
Parcerias com China, Índia, África do Sul e sim, também com a Rússia mostram-se estratégicas. Após sofrer sanções severas, a Rússia investiu fortemente em sistemas operacionais próprios, infraestrutura de rede e nuvens locais.
Diversificar não é isolar. É garantir segurança, autonomia e soberania tecnológica.
O PIX é um exemplo de que é possível
Desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, o PIX mostra que é possível criar soluções modernas, eficientes e 100% nacionais, inspiradas em boas práticas internacionais.
Hoje, é um dos sistemas de pagamento mais avançados do mundo, oferecendo segurança, acessibilidade e independência o que incomoda interesses internacionais, especialmente no setor de cartões, dominado por Visa e Mastercard.
Além disso, o PIX fortalece a proteção de dados, evita intermediários estrangeiros e mantém a inteligência financeira dentro do país.
O que na minha opinião o Brasil precisa fazer?
- Investir continuamente em pesquisa e desenvolvimento tecnológico;
- Capacitar profissionais em software, segurança, redes e hardware;
- Fortalecer empresas nacionais incluindo estatais estratégicas como a CEITEC;
- Estabelecer parcerias ativas no âmbito do BRICS em áreas como energia, IA, comunicação e cibersegurança;
- Criar políticas públicas efetivas e engajar a sociedade na pauta da soberania digital.
Opinião
Como estudante de Engenharia da Computação e atuante na área de tecnologia há mais de 23 anos, acompanhei diversas reviravoltas: hypes, sucessos e fracassos.
Mas um fato sempre foi constante: o sufocamento de iniciativas nacionais extremamente competentes, eficientes e criativas, pela concorrência estrangeira não por serem melhores, mas por contarem com maior investimento em P&D e capacitação técnica. Em crises economicas cíclicas, ficamos muito a mercê dos ânimos do mercado internacional.
Soberania em tecnologia é estratégico também como mercado de alto valor agregado, o Brasil precisa se reindustrializar tanto em manufatura para suprir e tratar nossas commodities como principalmente de alta tecnologia.
Nós, profissionais de tecnologia, precisamos de soberania: projetar nossos próprios softwares, hardwares e metodologias, voltados às necessidades reais do país econômicas e sociais.
O Brasil tem um potencial gigantesco para competir de igual para igual em setores como saúde, agricultura, pecuária, aeronáutica e softwares financeiros e ERP.
Conclusão
Este não é um chamado ao isolamento é um convite à maturidade digital. A transição tecnológica já aconteceu. Agora, o Brasil precisa garantir que ela seja segura, sustentável e soberana.
Empresas estrangeiras devem seguir nossas regras soberanas, assim como precisamos suas leis quando operamos fora.
Fique a vontade para fazer criticas construtivas e opiniões sobre o tema, ele é extremamente difícil e delicado, não há resposta simples para um problema tão complexo.