A Confortável Conveniência da Abstração
É inegável que as conveniências do dia a dia são muito bem-vindas — como ter, ao alcance de poucos cliques, tarefas que antes exigiriam muito tempo e disposição, nos libertando de grande parte do labor.
Breve História do Desejo por Automatização
Sociedades antigas, como a dos gregos, egípcios e até mesmo os sumérios, sempre imaginaram tecnologias que pudessem automatizar ou melhorar processos trabalhosos, especialmente diante do modelo social de trabalho da época, em que produzir mais e estocar melhor para períodos de seca ou inverno era essencial. O ser humano aprendeu, com eventos periódicos e previsíveis, a produzir ferramentas e técnicas para controlar sua produção e até mesmo o tempo.
Foram imaginadas máquinas automáticas, com sofisticadas engrenagens, contrapesos, polias e até mesmo vapor para melhorias. Porém, em muitos casos, essas tecnologias eram utilizadas apenas como entretenimento para reis e monarcas.
Essa tecnologia, inicialmente pensada para aliviar o trabalho, de fato teve esse objetivo. No entanto, muitas dessas inovações foram esquecidas ou destruídas ao longo do tempo, devido a guerras e mudanças de regime. Perdemos, assim, o poder de abstrair o trabalho de forma consciente.
O Conceito de Abstração e Seus Limites
A abstração, de acordo com o dicionário, refere-se ao ato ou processo de isolar mentalmente certas características ou aspectos de algo, ignorando outros detalhes considerados menos importantes ou irrelevantes. Essa definição é perfeita para o que quero abordar aqui. Mas a pergunta que fica é: até que ponto a abstração é realmente benéfica?
Abstrações na Produção Contemporânea
Em uma sociedade contemporânea, com uma dinâmica econômica de produção constante, o conceito de abstração é absolutamente necessário. Quanto mais se produz, mais competitiva pode ser uma indústria ou prestadora de serviço. Quanto mais rápida a venda e o consumo de uma mercadoria, melhor para a economia.
Porém, o excesso de abstração nos afastou, gradualmente, de soluções simples e elegantes ou mesmo fundamentais criando padrões e regras cada vez mais engessadas para atender à crescente demanda produtiva. Isso tem mitigado o pensamento criativo, que busca alternativas mais precisas e sofisticadas, mas que exigem maior pesquisa e tempo de execução.
A Produção Acelerada e Seus Problemas
Para manter a velocidade de produção, apostamos em abstrações tecnológicas e equipamentos mais potentes, computadores com maior poder de processamento e softwares mais avançados. Isso exige dos profissionais conhecimentos cada vez mais específicos e menos abrangentes. A urgência da entrega reduz a possibilidade de uma atuação mais generalista. “Time is money”.
Esses softwares, produzidos de forma acelerada, costumam ter rápida entrega, mas frequentemente apresentam problemas de usabilidade, inconsistência, bugs ou soluções que fogem do escopo principal. Às vezes, são robustos demais para o problema que se propõem a resolver; outras vezes, simples demais e incompletos. Isso gera retrabalho e insatisfação.
Diferentemente de produtos físicos, os softwares permitem “recall” com muito mais facilidade. Um simples update pode resolver a falha. Já em objetos materiais, uma falha exige correção física ou devolução, gerando um prejuízo muito maior.
Entrega assim mesmo, resolvemos depois.
O Especialista que Perde o Todo
Vivemos em um mundo de tecnólogos cada vez mais especialistas e menos generalistas, o que acaba restringindo seu potencial criativo e colaborativo em uma gama mais ampla de produções um verdadeiro fordismo do século XXI.
A especialização é essencial. No entanto, tornar-se especialista demanda tempo, e isso pressupõe saber lidar com problemas em diferentes níveis. O ideal é ser um especialista que também seja um generalista: alguém que saiba um pouco de tudo e muito de algo.
Compreender quais áreas estão interligadas à sua é fundamental para aprimorar processos dentro da sua competência. Para isso, é necessário ter uma boa noção das áreas satélites. Saber muito sobre o que se faz não é suficiente é preciso desenvolver uma visão global, seja conhecimento mínimo sobre o projeto que atua, seja sobre outras áreas e seus processos (design e produto, desenvolvimento, marketing, negócios). Isso agrega valor ao seu trabalho e amplia as possibilidades de evolução na carreira. Ser técnico demais pode limitar seu desenvolvimento. E, se a sua área de atuação perder relevância, a reinserção no mercado se torna mais difícil.
Além disso, em muitos casos, trabalha-se em uma solução sem sequer ter acesso ao produto final, o que reduz o aprendizado e amplia a frustração: seja por cumprir prazos apertados, seja pela sensação de não ter concluído algo significativo.
Isso não é sua culpa, nem sempre possuímos boas lideranças ou empresas com uma cultura organizacional eficiente, mas se possível, tente reivindicar compreender melhor o processo e até mesmo fazer networking com as outras áreas, isso é enriquecedor demais.
Designers e Desenvolvedores Sob Pressão
Essa é uma realidade cada vez mais presente entre designers e desenvolvedores, que vêm perdendo a liberdade de inovar, o tempo para pensar ou elaborar projetos mais consistentes, criativos e até mesmo mais precisos. A necessidade de entregar rapidamente para tornar o produto rentável tem prejudicado o processo produtivo.
Com o passar das décadas, o design saiu dos godês com tinta e papel Canson, aquarelas e tinta nanquim para os computadores gráficos com mais cores do que nossa visão consegue perceber. Desenvolvedores passaram a usar IDEs e linguagens que agilizam a produção de código, revisando e estruturando tudo de forma automática sem a necessidade de configurar cada elemento manualmente, indo direto ao que importa: a regra de negócio.
Quando Abstração Vira Dependência
Essas abstrações são muito bem-vindas. Hoje, seria contraproducente fazer um desenho ou esquema à mão livre como arte-final. Da mesma forma, desenvolvedores não precisam mais programar em Assembly ou fazer tudo do zero, já que boa parte dos softwares compartilham uma estrutura base comum, ninguém precisa reinventar a roda.
O problema surge quando a alta necessidade produtiva se une ao alto poder produtivo. Isso eleva constantemente a pressão, reduzindo o tempo necessário para resolver erros, propor ideias ou refletir. E claro, aqui entra a temida IA.
O Papel da Inteligência Artificial
As ferramentas generativas de texto (ChatGPT, Gemini, DeepSeek), popularmente conhecidas como IA, são muito úteis em contextos em que não precisamos reinventar a roda. Elas ajudam a aumentar a produtividade e reduzir bloqueios criativos como se fossem um oráculo nos guiando.
Mas, analisando friamente, esse “oráculo” não é assim tão inteligente. Imagine que você esteja criando algo realmente novo ou trabalhando em uma linguagem inédita. Essa IA, treinada com dados antigos, conseguiria te ajudar? Provavelmente não pode até atrapalhar.
A Ilusão da Inteligência Artificial
A IA não é uma inteligência e, menos ainda, é artificial. Quem afirma isso é Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro renomado. Ele explica que essa tecnologia não cria nada novo: apenas replica probabilidades baseadas em treinamento feito com dados humanos. Não é algo autônomo, e sim uma imensa colagem estatística.
Então, por que é tão ameaçadora? Porque usa big data e processamento massivo para fazer o que fazemos: abstrair e recombinar ideias. Em excesso, isso nos torna apenas operadores de peças replicadores.
O Custo Cognitivo da Automação
O excesso de abstração nos rouba o poder de pensar, analisar e inovar. O uso exagerado de frameworks sem compreender os fundamentos, ou a dependência de templates prontos no design, enfraquecem o processo criativo.
Mas isso é culpa sua? Não. Como inovar se não há tempo para isso? Empresas correm atrás da IA como se fosse uma corrida do ouro, tentando tirar o máximo de produtividade. A IA pode substituir trabalhos, sim, mas não lida bem com problemas complexos, humanos ou subjetivos. Ela não tem sensibilidade nem intuição.
O Futuro da Criatividade Humana
Minha opinião: se não forem renovadas com novos dados e atualizações, essas IAs se tornarão rapidamente obsoletas, como um computador fora da internet. A criatividade humana se renova todos os dias com ideias, descobertas, opiniões, arte. A IA não tem esse poder, e tão cedo não terá (mais certo, nunca).
No meu artigo anterior, falei sobre soberania de dados e o fato de que esses modelos só existem graças a poder computacional e petabytes de dados de origem desconhecida. Uma verdadeira caixa-preta.
O Que Precisamos Fazer?
Precisamos manter nossa capacidade crítica e criativa. Compreender os fundamentos. O que garantirá nossos empregos é um cérebro bem treinado. O excesso de abstrações e atalhos nos vicia e reduz nossa cognição, além de nos enredar em vieses difíceis de perceber.
Não substitua a relação humana pela relação com a máquina. Use-a com sabedoria — ela é uma auxiliar. Você domina a máquina, e não o contrário.
Aos Iniciantes: Cultive a Autonomia
Sinto que as novas gerações estão cada vez mais vulneráveis a soluções mágicas e menos tolerantes a falhas, pois a tecnologia promete velocidade e o mercado cobra resultados. Isso dificulta o aprendizado.
Se você é iniciante, quebre a cabeça! Explore caminhos alternativos, consulte profissionais experientes, cultive o senso crítico. Use a IA como ferramenta de apoio, não como bengala.
Sou designer há 19 anos e a quase 1 estudante de computação, é um desafio imenso, fico dividido entre ser um profissional experiente e um novato numa área onde todos parecem serem especialistas, não posso mensurar ainda.
Siga seu objetivo, o que você realmente gosta e acha que pode agregar na sua carreira, evite atalhos e foque eternamente em conhecimento, mesmo que possa parecer chato e difícil a princípio, mas no futuro você verá que faz todo sentido. Siga orientação de bons profissionais e professores, eles serão muito importantes na sua jornada, dispense gurus.
Considerações Finais
Se você chegou até aqui, agradeço por ler esta minha análise. Deixe um comentário e vamos debater esse tema tão urgente.