Em tempos de pós-verdade e evidências anedóticas, pensar criticamente passou a parecer quase um erro. Questionar, investigar, duvidarpráticas essenciais ao progresso são cada vez mais ignoradas.
O pensamento filosófico e, principalmente, o científico, que chegou a ter certa relevância na era da informação, foi sendo sufocado em meio a crendices e superstições.
Isso não é novidade na história da humanidade. Em tempos difíceis, é natural nos apegarmos ao consolo de palavras fáceis e ideias que confirmam aquilo em que já acreditamos. Muitas vezes, isso não passa de viés de confirmação. Confrontar-se com crenças arraigadas frequentemente gera discussões, rancores ou até violência.
Em 1980, a emissora estadunindense PBS lançou a aclamada série Cosmos: A Personal Voyage. Carl Sagan coescreveu o roteiro com Ann Druyan e Steven Soter, além de escrever um livro baseado na série. Composta por 13 episódios de aproximadamente 60 minutos, a série é uma verdadeira jornada poética e filosófica pelo Cosmos, apresentada pelo próprio Sagan.
A audiência brasileira também teve acesso a esta fantástica obra logo após o Fantástico (com perdão da piada), exibido pela Rede Globo em 1982.
Logo no início do primeiro episódio, ele narra:
“O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou será. A contemplação do cosmos mexe conosco dá um calafrio na espinha, um nó na garganta, uma sensação de vertigem, como cair de uma grande altura.”
Esse trecho resume de forma elegante e profunda o conceito da palavra “cosmos”. Ele acende nosso cérebro como uma lâmpada, preparando-nos para a vastidão do conhecimento que está por vir.
Carl Sagan apresenta toda a história do universo. A abertura, embora possa parecer datada por ter quase meio século, ganha vida com a trilha do músico grego Vangelis famoso pelo tema de Carruagem de Fogo, símbolo das Olimpíadas.
Para quem não é fã de temas sobre o espaço, é importante entender: Cosmos não fala só do universo. Fala de tudo. Fala de como o universo, o planeta, a vida e, por fim, nós evoluímos e tomamos consciência da vastidão do muito grande e do muito pequeno. Mostra a constituição dos elementos fundamentais, forjados em supernovas, os blocos de construção da vida, o DNA, e como esses blocos, em condições ideais, fizeram cópias de si mesmos dando origem à vida.
Passamos pelas eras evolutivas, ilustradas de forma didática, compreendendo que toda a vida forma ramos de uma imensa árvore de espécies. Sagan viaja no tempo e no espaço, revisitando descobertas e pensamentos das civilizações antigas, especialmente a grega. Relata, com pesar, os prejuízos causados pelo fanatismo religioso, que destruiu muito do conhecimento acumulado no mundo antigo. Um exemplo emblemático é a destruição da Biblioteca de Alexandria, da qual restam apenas fragmentos que mostram o avanço dos antigos em engenharia, matemática, química, astronomia e tecnologias como máquinas a vapor, hidráulica e autômatos mecânicos.
Ele faz uma crítica contundente à astrologia e à sua incapacidade de passar por testes científicos rigorosos. Reforça que a ciência é um processo autocorretivo. Com avanços acumulados por gerações, ela continua sendo a melhor ferramenta que temos para explicar o cosmos.
A célebre frase de Sagan: “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.” resume a importância do pensamento crítico. Eventos complexos não podem ser explicados por atalhos ou deduções apressadas. Hipóteses precisam sobreviver ao crivo do método científico, que elimina vieses e achismos, apresentando caminhos testáveis e comprováveis.
Na época, levar ciência para a televisão foi considerado uma loucura. A mídia acreditava que o público não teria interesse em conteúdos assim. Mas Sagan, já renomado cientista, insistiu em apresentar de forma lúdica e reflexiva as bases do conhecimento e do método científico. A série foi um sucesso estrondoso, inaugurando uma nova era na divulgação científica audiovisual.
Carl Sagan é considerado o pai da divulgação científica moderna. Massificou o interesse pela ciência, sempre com o objetivo de fortalecer o pensamento crítico. Também aproveitou Cosmos para criticar o contexto da Guerra Fria e o risco de uma guerra nuclear. Foi um dos primeiros a alertar sobre o efeito estufa catastrófico que a Terra poderia sofrer, baseado em estudos do planeta Vênus.
As 13 horas de conteúdo são ricas em informação e, mesmo produzidas no final dos anos 1970, continuam surpreendentemente relevantes. Na época, por exemplo, ainda não se sabia ao certo a causa da extinção dos dinossauros confirmação que só viria uma década depois. Porém, a ciência já especulava sobre a colisão com um asteroide, mostrando como o conhecimento se constrói em camadas.
E o que a série acrescenta à vida de quem assiste?
Para mim, a resposta ecoa diretamente na minha carreira. Com formação em Desenho Industrial e hoje cursando Engenharia da Computação, aprendi que a solução para um problema nunca é superficial. O pensamento crítico, tão defendido por Sagan, é a ferramenta que me permite ir além de modelos prontos e “receitas de bolo”.
Na prática profissional, isso se traduz em investigar a fundo cada desafio, propondo a melhor solução ao equilibrar variáveis como prazo, orçamento, equipe e a real necessidade do cliente. Os insights do método científico me ajudam a evitar o desperdício de tempo e recursos em soluções maiores que o problema, focando no que é essencial para criar interações eficientes e significativas entre pessoas e tecnologia.
Ainda que a computação me seja familiar desde a infância, a contemplação de sua vastidão provoca no maior dos especialistas aquela mesma “sensação de vertigem, como cair de uma grande altura”. É vertiginoso pensar em como um algoritmo sua fórmula, história e autor se materializa na parte eletrônica, onde arranjos de transistores miniaturizados a tamanhos quase atômicos realizam cálculos em velocidades inacreditáveis.
Contemplar isso é admirar as dez mil gerações de ancestrais cujo acúmulo de conhecimento tornou possíveis as abstrações que hoje garantem nossa conveniência. Como o próprio Sagan alertou em seu último episódio, com uma clareza desconcertante: “Aceitamos os produtos da ciência; rejeitamos seu método”. Essa frase resume a banalização da complexidade que nos cerca e reforça nosso dever de garantir que essa herança de conhecimento se perpetue para as novas gerações.
Mais do que uma série, Cosmos é um exercício contínuo de pensamento crítico. Desperta curiosidade, fascínio e o desejo sincero de entender nosso lugar no universo.
Carl Sagan faleceu em 1996, vítima de câncer, mas seu legado permanece vivo entre cientistas, estudiosos e o público interessado em ciência.
Conclusão
Compreender o funcionamento sistemático das coisas pode parecer entediante para alguns. Mas, a todo momento, refletimos, criamos hipóteses e exercitamos nosso pensamento crítico. Com o método certo, podemos nos tornar seres pensantes mais precisos, conscientes de que, na vastidão do cosmos, habitamos um planeta minúsculo em um universo extraordinariamente complexo.
E talvez seja justamente essa consciência que nos torne humanos: a capacidade de compreender e de continuar buscando entender o que ainda não sabemos.