Ao sair da faculdade, eu tinha a visão de que bastava aplicar processos corretos, seguir metodologias e educar as pessoas sobre design. Pensava em um mundo lógico e previsível, onde o conhecimento, por si só, colocaria tudo nos eixos.
A vaidade do recém-formado
Nos primeiros empregos, há uma certa vaidade do recém-formado: nos sentimos especiais, como uma joia rara. Mas a verdade é que somos diamantes brutos raros por natureza, mas que só revelam seu valor completo após lapidação. E essa lapidação exige tempo, experiência, falhas e conquistas.
O choque com o mercado
Vamos ao ponto central: o mercado não opera como a academia. O que aprendemos é o ideal, porém a realidade é caótica. E nosso papel como designers é trazer um mínimo de ordem a esse caos. A frustração inicial vem da expectativa de sermos ouvidos, de verem o processo respeitado. Isso raramente acontece.
Diagnóstico primeiro, solução depois
A chave está em identificar, no meio da desordem, a raiz do verdadeiro problema e o caminho mais eficaz para resolvê-lo. Às vezes, o diagnóstico já aponta para a solução.
Em alguns casos, o diagnóstico é que não precisa de projeto algum, que o problema não pode ser resolvido em um projeto de design. Seja honesto e passe isso para o cliente. Com o tempo, você poderá até mesmo recusar alguns projetos. Precisamos também ser estratégicos.
Ser designer é ir além do design
Seja curioso além das fronteiras. Saia de sua zona de conforto. Se seu foco é digital, explore impressos, embalagens, prototipagem física. Entenda de publicidade, marketing, product design, UX. Aprenda noções de front-end, métodos ágeis e até o básico de desenvolvimento.
Ser generalista é mandatório
Ser generalista não é opção; é necessidade na nossa profissão. Projetamos para realidades que desconhecemos desde uma loja de materiais de construção até laboratórios de inovação com físicos e engenheiros. Você não precisa dominar o jargão deles, mas precisa traduzi-lo em solução. Somos ponte entre os mundos.
Briefing? Que briefing?
Briefings mal elaborados? Se você percebe os erros, é porque conhece o caminho certo. Grande parte das demandas chega como “faça uma arte para ontem”. Não há espaço para reflexão, apenas execução. É desgastante e entendo essa angústia.
Ficamos esperando pelo tão sonhado e desejado briefing, porém, este quando raramente aparece é inconsistente e muitas vezes aborda o que precisa ser feito, não o problema em sí. Se você e designer e recebe um briefing impecável, parabéns para quem o produziu, mesmo assim tente entender bem o problema, encare ele como seu norte.
Design também é política
Muitas vezes, executamos, sim. Mas há um gesto de profissionalismo: antes de começar, dialogue. Explique que uma breve investigação pode evitar retrabalho e garantir um resultado mais sólido. Seja pragmático, coerente e estratégico, use a comuicação a seu favor, contextualize caso haja tempo e seja objetivo quando tempo for escasso. Essa maleabilidade é a arte invisível do design.
Nem tudo é só método
Não siga metodologias cegamente, seja existe mais de um taí o motivo. Pince o que é essencial. Não paralise o processo por ausencia de um ideal de informações. A luz de uma vela ainda é melhor que a escuridão total. Mudanças radicais raramente funcionam. Avance passo a passo, compreendendo o contexto à sua volta. Assuma responsabilidade pelo seu trabalho e principalmente: Comunique-se com clareza, compreenda e busque ser compreendido.
Designer não é produtor de telas
Você não é um produtor de telas. É um projetista. Comporte-se como tal. Conheça as funções da sua equipe, os stakeholders, o modelo de negócios da empresa e do cliente.
Se você tem apenas 1 hora para compreender, divida em: O que? (qual o problema) , Por que? (qual a raiz do problema, se tiver mais tempo enfia os 5 porquês), Pra que? (qual o objetivo principal) Pra quem? (para quem é o projeto) Pra quando? (quando precisa da solução).
Cada um desses passos pode ser aprofundado com metodologias mais avançadas, mas considero esses o mínimo para manter uma vela acesa.
Calma gafanhoto: Inteligência, Astúcia e só depois criatividade
Um designer precisa ser, por prioridade: inteligente (para decifrar contextos), astuto (para navegar limitações) e, só então, usar e abusar da criatividade.
Não somos artistas. Pouco importam nossos gostos ou preferências. Somos projetistas que lidam com problemas. A criatividade é precedida pela astúcia e pela inteligência. Em boa parte dos projetos, lidaremos com identidades visuais ruins, paletas de cores inadequadas e, principalmente, padrões arbitrários que devemos seguir. Isso nos desanima e, de certa forma, poda nosso potencial de produzir algo visualmente diferente. Mas sim, a realidade é menos elegante do que o ideal e, como vimos, nosso trabalho vai além disso.
O processo de compreensão vale muito, às vezes até mais do que o resultado final. Você aprenderá muito mais com as falhas do que com os acertos. Se você atua no digital, tire proveito disso: utilize testes de usabilidade, testes A/B. O que os outros veem e como veem é subjetivo. Você não tem bola de cristal. Respeite-se e exija respeito.
Desapegue da Vaidade
Evite o excesso de vaidade. Defenda sua ideia, mas não fique cego por ela. Reaproveite ideias sólidas. Não acrescente complexidade desnecessária. Não se apegue à sua solução permita que outros se encantem por ela.
Você pode ouvir: “Não gostei”, “Não está legal”, “Não é isso”, “Está errado”. Nossa primeira reação costuma ser: “Como assim? Tive um trabalho absurdo para fazer isso, fiz toda uma conceituação, estudei, pesquisei, bla bla bla…”. Calma. Lembre-se de que você lida com o subjetivo. Respire fundo e faça a pergunta mais importante: por quê?
É aí que entra a astúcia. Se houver espaço, contra-argumente. Defenda sua ideia com base e respeito. Mas, se perceber que errou, seja humilde e faça o ajuste necessário. Isso é trabalho. E, na verdade, essa é a regra não a exceção. Nem todo dia você vai acertar de primeira.
A parceria perfeita é o avaliador sincero e designer humilde, cara, essa dupla vai longe. Eu demorei muito a compreender isso. Mas a regra é que você lidará com egos e subjetividades.
Se você está em uma empresa que reduz design à produção visual e ignora sua essência estratégica, procure outras oportunidades. É melhor do que estagnar.
Cultura de design se Impõe
Implantar cultura de design por decreto é ilusão. As pessoas estão ocupadas demais para seguir regras abstratas, é mais fácil você se adequar que as pessoas se adequarem a você. Nessa batalha, vence quem mostrar mais resultado.
Quando seu processo entrega resultados tangíveis, as pessoas percebem. Passam a escutar. E, naturalmente, algumas começam a adotar sua abordagem. Não por imposição, mas por reconhecerem valor.
Implante o que você consegue defender ser o melhor processo, transforme a ideia em algo possível, faça de forma gradual e agregadora e sem vaidades. Se você quer mudar as regras sem ter certeza você é um suicida, se der errado os dedos seram apontados a você, ideias futuras serão recusadas, respeite o processo, respeite os outros.
Design não é controle. É Clareza
Muitos clientes chegam com “soluções prontas”, genéricas. Nosso dever é investigar, ouvir, compreender e mostrar que cada projeto é único. Se você é tomador de decisão, dispense projetos que só trarão problemas (sei que tem que pagar contas, mas vai por mim, dispense).
O designer de verdade
Ser designer exige mais que método. Exige que sejamos: Investigadores, questionadores, coerentes, humildes, técnicos, estratégicos e colaborativos.
A faculdade não errou
O fracasso é parte da jornada. A universidade nos ensina o ideal e isso é essencial, não é para aprender a ser bom em uma ferramenta ou framework, isso é temporal, fundamentos são atemporais e facilmente ajustáveis. Muita gente fala sobre funcionalidade, menos é mais, minimalismo, isso foi elaborado de forma elegante em 1919 e mesmo assim inspirado em correntes artísticas e projetos arquitetônicos do inicio da revolução industrial. Uma coisa puxa a outra, isso é o que a faculdade ensina.
Pensadores, não operadores
A academia não forma técnicos. Forma pensadores, forma seres ativos e não passivos. Pessoas que enxergam padrões, interpretam contextos, constroem caminhos e desafiam o estabelecido. Seguir regras não é ser conivente e frouxo é ser estratégico para elaborar gradualmente novos conceitos, trabalhar em cima do real não do subjetivo.
Sem isso, o que você faz é produzir artefatos. Isso não é design.
Ainda Assim, design é incrível
Depois de todo esse banho de água fria, mesmo com toda a imposição de prazos e entregas, temos a oportunidade de produzir algo único, que pode gerar transformação real.
Somos agregadores de conhecimento. Não somos gênios. Não somos artistas. Somos projetistas. Somos ponte entre o idealismo e a realidade.
Amigo designer, compartilhe sua opinião. Escreva também sua visão, sua experiência. Forte abraço.