Há um bom tempo venho rascunhando essa ideia, algo fora da minha área técnica, mas que ronda constantemente meus pensamentos.
Antes de tudo, deixo claro: este texto não é uma análise científica. E o termo “dilema do pensamento anacrônico”, pelo menos até onde pesquisei, não é um conceito formal. É apenas uma tentativa pessoal de dar nome a um tipo de conflito interno que tenho observado em mim e em muitas outras pessoas ao meu redor.
Trata-se de uma reflexão aberta, baseada em vivências e observações. Se você chegou até aqui por curiosidade diante das palavras “dilema” e “anacrônico”, espero que este texto traga alguma identificação ou, ao menos, provoque reflexão.
Um pensamento anacrônico ocorre quando atribuímos a um tempo passado ideias, valores ou interpretações próprias de um tempo posterior. Em outras palavras, é pensar que o passado era melhor ou mais fácil, com base na visão e nas referências que temos hoje.
Não estou falando de situações que, de fato, se tornaram piores sob o mesmo contexto isso é outra discussão. Falo daquela comparação enviesada, onde idealizamos o passado sem considerar o que realmente era viver nele.
Por exemplo: nos anos 1900, comunicar-se era extremamente difícil, pois não havia telefone, tampouco internet. Mas quase ninguém hoje viveu essa época. E mesmo quem viveu, passou por transformações graduais.
Eu nasci em 1987. Vivi minha infância sem internet e minha adolescência sem smartphone. E, mesmo lembrando que minha rotina era totalmente diferente, hoje não consigo me imaginar vivendo os anos 1990 sem essas tecnologias. Isso porque minha referência atual, de 2025, contamina meu julgamento do passado e isso é anacronismo.
Certo, mas onde entra o dilema?
O dilema surge quando esse pensamento começa a gerar ansiedade, arrependimento ou até culpa. Quando nos pegamos pensando: “Se eu tivesse feito aquilo há cinco anos, hoje minha vida seria outra.” E talvez até fosse. Mas estaria melhor? É impossível saber.
Esse tipo de julgamento é ao mesmo tempo natural e incoerente. Fazemos isso constantemente, principalmente quando falamos de carreira.
Nos comparamos com versões idealizadas de nós mesmos ou com histórias de outros muitas vezes distorcidas, romantizadas ou desconectadas do nosso próprio contexto.
Considero métodos e referências importantes em qualquer profissão, mas precisamos analisá-los com cuidado dentro da realidade presente. “O que eu deveria ter feito?” é uma pergunta que só serve para nos prender no arrependimento.
Eu mesmo já pensei: “Deveria ter feito essa faculdade antes.” “Deveria ter feito pós-graduação.” “Deveria ter aceitado aquele emprego ou feito aquele intercâmbio.” Mas pensar nisso é inútil. E digo isso com tranquilidade, pois já vivi e observei muitas pessoas vivendo exatamente esse mesmo ciclo. A verdade é que se você começou algo agora, isso é uma vitória. E só foi possível agora porque você finalmente teve as condições ideais, a maturidade e principalmente a coragem para dar esse passo.
Na área de design e tecnologia, ouço com frequência profissionais mais velhos (e às vezes me pego fazendo o mesmo) dizendo: “Na minha época, eu fazia layout com godê, pincel e tinta.” “Fazia tudo em cartão perfurado.” “Não tinha Google, tinha que ir na biblioteca.” “Hoje tudo é fácil: tem internet, IA, frameworks…”
Para quem está começando, esse discurso pode ser um balde de água fria. E, sejamos honestos, quem está na casa dos 40 provavelmente já se viu repetindo esse comportamento o que é compreensível, mas precisa ser revisto.
As pessoas em 1980 faziam o que era possível em 1980. E ponto. A tecnologia de ponta do passado era de ponta no passado. As exigências de antes eram outras. A tecnologia é uma ferramenta apenas isso. Contadores faziam contas sem Excel. Pessoas enfrentavam filas imensas para pagar boletos. Amigos se encontravam marcando hora e lugar. Esse era o normal.
Relembrar a infância, jogar um videogame antigo, conversar com amigos sobre o passado… tudo isso é nostálgico e importante. Mas tentar viver no passado ou julgá-lo com os olhos do presente não faz sentido.
Se você chegou até aqui e se identificou, compartilhe sua opinião. Talvez esse dilema do pensamento anacrônico não seja só meu e talvez não precisemos mais carregá-lo sozinhos.